Três trabalhadores desaparecidos após viajarem para Mato Grosso foram encontrados enterrados em vala clandestina; investigação aponta envolvimento de facção criminosa e uso de videochamada para ordenar execuções.
As famílias de três jovens mortos em um suposto "tribunal do crime" no interior de Mato Grosso realizam campanhas de arrecadação para custear o traslado dos corpos até Mato Grosso do Sul. Entre as vítimas está Breno Gabriel Soares Cabral, de 21 anos, morador de Sidrolândia, além dos irmãos Wagner Felipe Rocha Viana, de 20 anos, e Wilquison Eduardo Rocha Viana, de 23 anos.
 |
| Jovens de MS são executados por facção criminosa no Mato Grosso - Imagem Reprodução |
Os corpos foram localizados na tarde de terça-feira (7), enterrados em uma estrada vicinal no Distrito Marechal Rondon, área rural a cerca de 70 quilômetros de Campo Novo do Parecis (MT). O desaparecimento dos jovens havia sido registrado no último sábado (4), após eles saírem do alojamento onde estavam hospedados para trabalhar em um galpão na região.
Dinâmica do crime e ligação com facções
De acordo com o delegado Guilherme Kaiper, responsável pelas investigações, o triplo homicídio está associado à atuação de facções criminosas na região. Segundo apurado, as vítimas teriam sido atraídas com o pretexto de jogar sinuca e, por serem de fora do estado, despertaram suspeitas entre integrantes do grupo local.
 |
| Vítimas foram localizadas no Distrito Marechal Rondon, em uma área rural a 70 km de Campo Novo do Parecis — Foto: PJC-MT |
As investigações indicam ainda que uma videochamada foi realizada no momento da execução, prática comum nos chamados "tribunais do crime", em que membros de organizações criminosas decidem, de forma sumária, o destino de pessoas consideradas "inimigas" ou "suspeitas". Após a ordem transmitida remotamente, os jovens foram levados a uma estrada isolada, executados e enterrados juntos.
Famílias relatam desamparo e buscam ajuda financeira
Em depoimento, Kamila Viana, irmã de Wagner e Wilquison, relatou a dificuldade enfrentada para trazer os corpos dos irmãos de volta ao Mato Grosso do Sul. "Estamos precisando de ajuda para trazer o corpo dos meninos de volta. A empresa não está dando nenhum suporte", afirmou.
A mãe de Breno, Elaine Cristina Soares, de 42 anos, também expressou indignação com a falta de assistência. Segundo ela, ao procurar os responsáveis pela contratação dos jovens, foi informada de que o custo do traslado poderia ser descontado dos salários que eles ainda receberiam. "Quer dizer que meu filho foi trabalhar para morrer? Foi para pagar o próprio enterro?", questionou, emocionada.
Elaine ainda relatou que o Instituto Médico Legal (IML) orientou que o transporte dos corpos ocorra com urgência, uma vez que os caixões serão lacrados para o deslocamento. "Eu só quero dar um enterro digno para ele, não jogar ele em uma vala como foi encontrado", desabafou a mãe, que reforça que o filho não tinha qualquer envolvimento com o crime organizado. "Meu filho era trabalhador, muito querido. Não vou deixar o caráter dele ser destruído", afirmou.
Campanhas de arrecadação e valores envolvidos
Para viabilizar o retorno dos corpos, as famílias criaram vaquinhas online. O traslado dos dois irmãos Viana foi orçado em R$ 12,5 mil, valor que está sendo arrecadado por meio de doações via Pix. Elaine também mobiliza recursos para trazer Breno de volta a Sidrolândia, onde será sepultado.
Perfil das vítimas e contexto da viagem
Os três jovens haviam deixado Mato Grosso do Sul em busca de oportunidades de trabalho temporário no setor agropecuário de Mato Grosso, prática comum na região. Segundo familiares, todos eram trabalhadores e não possuíam histórico de envolvimento com atividades ilícitas.
A Polícia Civil de Mato Grosso segue com as investigações para identificar e responsabilizar os autores do crime. O caso deve ser analisado em conjunto com as autoridades de MS, considerando a origem das vítimas e as possíveis conexões interestaduais do grupo criminoso envolvido.