Cartão de crédito rotativo: vilão do endividamento brasileiro bate recorde e se aproxima de R$ 400 bilhões em 2025


O cartão de crédito rotativo, reconhecido como a linha de crédito mais cara do sistema financeiro brasileiro, registrou expansão acelerada após o fim da pandemia de Covid-19. Em 2025, os empréstimos por essa modalidade se aproximaram da marca de
R$ 400 bilhões, segundo dados do Banco Central (BC), revelando um cenário de endividamento crescente entre a população.
A modalidade é acionada quando o consumidor não paga o valor integral da fatura na data de vencimento. O saldo restante entra no rotativo, incidindo juros compostos que, em fevereiro deste ano, atingiram 436% ao ano, a taxa mais elevada entre todas as linhas de crédito disponíveis no país. Para comparação, empréstimos consignados variam entre 24% e 60% ao ano.

Perfil do endividamento

De acordo com o BC, 101 milhões de brasileiros possuem cartão de crédito, o que representa quase metade da população do país. Desses, cerca de 40 milhões estavam com dívidas no rotativo em janeiro de 2026. A taxa de inadimplência dessa linha de crédito alcançou 63,5%, indicando que mais de R$ 60 de cada R$ 100 emprestados não foram honrados pelos consumidores.
Analistas do mercado financeiro alertam que o rotativo deve ser utilizado apenas em situações de emergência extrema. A recomendação padrão é que os correntistas quitem integralmente a fatura mensal para evitar a capitalização de juros exponenciais.

Mudança de comportamento no pós-pandemia

Entre 2012 e 2020, as concessões anuais via rotativo nunca ultrapassaram R$ 225 bilhões. O cenário mudou a partir de 2022, com o fim do Auxílio Emergencial e o retorno de pressões inflacionárias o IPCA chegou a superar 10% em 2021 e fechou 2022 em 5,8%.
Nesse contexto, famílias que antes contavam com apoio governamental passaram a buscar alternativas para equilibrar o orçamento. "O que observamos é que parte da população está utilizando linhas de crédito emergenciais, como o rotativo, como se fossem complemento de renda", afirmou Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, em entrevista recente. "Isso demanda uma discussão estrutural sobre alternativas mais adequadas ao perfil do consumidor."

Medidas regulatórias e propostas em andamento

Em janeiro de 2024, Congresso e governo federal aprovaram limite para o endividamento no rotativo: a dívida total, incluindo juros e encargos, não pode exceder o dobro do valor original. Assim, uma fatura de R$ 100 em atraso não poderá gerar cobrança superior a R$ 200.
Paralelamente, o governo lançou, em 2025, o crédito consignado para trabalhadores do setor privado, com mais de R$ 80 bilhões liberados em um ano. A proposta é oferecer taxas menores e condições mais previsíveis. No entanto, a regulamentação do uso do saldo do FGTS como garantia para empréstimos medida anunciada como diferencial para reduzir juros — ainda aguarda implementação.

Programa de refinanciamento em estudo

Em ano eleitoral, o Executivo avalia um novo programa para reduzir o endividamento das famílias. A estratégia prevê unificar dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal em uma única parcela, com descontos nos juros que variariam de 30% a 80%, podendo chegar a 90% em negociações diretas com instituições financeiras.
Também está em análise a possibilidade de permitir o uso de recursos do FGTS para quitação de débitos, com limites para preservar o fundo de reserva dos trabalhadores. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou que ambas as medidas estão sendo estudadas.

Orientações para o consumidor

Especialistas reforçam que o rotativo deve ser a última opção de crédito. Caso o consumidor não consiga pagar a fatura integral, alternativas mais seguras incluem:
  • Negociar diretamente com a administradora do cartão para parcelamento com juros menores;
  • Buscar empréstimos consignados, caso tenha vínculo empregatício ou receba benefício do INSS;
  • Utilizar programas de renegociação como o "Desenrola Brasil" ou iniciativas estaduais;
  • Procurar orientação em órgãos de defesa do consumidor, como Procons e entidades de assistência financeira.
O Banco Central mantém canal de atendimento para dúvidas sobre direitos do consumidor financeiro e orienta que todas as negociações sejam formalizadas por escrito, com clareza sobre taxas, prazos e encargos.
Enquanto o debate sobre políticas públicas avança, a realidade nas residências brasileiras evidencia um desafio estrutural: equilibrar acesso ao crédito com educação financeira, para que o cartão de crédito seja ferramenta de conveniência — e não armadilha de endividamento.

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